o que se perde enquanto os olhos piscam*

sábado, 29 de janeiro de 2011

passarinho se não bate as asas,
esquece como é que se voa -
gente também:

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

ela resolveu que deveria começar a regar a planta.
Na verdade, planta ainda não era – mas viria a ser.
As sementes ela mesma semeara, embora tivesse escolhido não saber o que delas poderia brotar:
A expectativa a encorajava.
Quando regava a terra, sentia-se menos infeliz: era como se uma outra vida dependesse da sua, então era necessário viver.
Sentia-se também mais forte: tinha o poder de decidir sobre aquela outra vida.
Podia matá-la se quisesse.
Mas aquele pensamento era mórbido demais para ela, então logo o abstraía.
Preferia sonhar com o primeiro broto – resultado de seu incansável trabalho.
O dia deste nascimento viria a ser ensolarado, de um calor que aquece o coração - como o são todos os dias de aleluia.
Depois ela cuidaria da planta, porque mesmo as coisas já crescidas precisam de atenção e afeto.
Não importava o que viria a ser a planta – se uma bela flor, se planta carnívora ou hortaliça – ela mesma não sabia bem diferenciar plantas.
O importante é que seriam as duas, ela e a planta, a cuidar uma da outra – só não se sabe ao certo quem é que dependeria mais de quem.
Mas agora, o jeito era esperar.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

lembrança boa é essa assim
que surge de repente, sem dar aviso
e faz a gente rir sozinho -
quando menos se espera
está mostrando os dentes pro nada
e, ao mesmo tempo, pra tudo.

porque é esse tipo de coisa
que faz a gente lembrar o quanto viver vale a pena.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

[ Às vezes dá saudade de ser criança,
de quando eu brincava na praia
de apanhar conchas na beira do mar.
Era bom porque quando eu estava em casa
e sentia falta do mar,
eu pegava uma das conchas
e colocava no ouvido pra escutar as ondas –
Eu carregava o mar comigo e não sabia ]

domingo, 28 de novembro de 2010

Impossível continuar a caminhar assim,
De olhos vendados,
Tateando paredes invisíveis,
Pisando em um chão –
Construído por mim, mas com a sua ajuda –
Que se desfaz ao toque dos meus pés.

Porque chega uma hora em que permanecer na mesma trilha
É retroceder
E dá um medo danado de, quando a estrada chegar ao fim,
não perceber que esse fim chegou
E despencar lá do alto
E se estatelar no chão –
Esse sim, bem sólido.

Mas é que quando a gente passa a enxergar,
Percebe que tudo são cacos.